Que relação existe entre o amor e a criatividade?

Para quem só agora chegou ao “Passei e Gostei!” deixem-me apresentar-vos o João Miguel Cunha. Para além de ser uma pessoa extraordinária, ensina alunos e professores a pensar.

Desta vez desafiei-o, na condição de mãe, a esclarecer algumas dúvidas que tinha sobre a relação entre o amor (ou falta dele) que passamos aos nossos filhos e a sua capacidade criativa.
O resultado foi um texto muito esclarecedor e que nos permite uma reflexão mais profunda sobre um tema que considero tão importante.

Amor, erro e criatividade

Será que maiores e melhores manifestações de amor e afeto, tornam as crianças mais criativas e promovem o desenvolvimento de adultos criativos?

É sempre pouco rigoroso questionar o impacto de uma só variável no desenvolvimento pessoal. Cada característica nossa depende de incontáveis variáveis, desde a genética, passando pelo contexto de vida ou até por aquilo que comemos ao pequeno almoço. Contudo, há variáveis cujo impacto as faz merecer lugares de destaque. Escusado será argumentar as múltiplas razões que fazem do amor uma dessas variáveis.

O ato criativo, por norma é definido como a busca de novas soluções para novos ou antigos “problemas”, sendo que “problemas” tanto podem ser práticos, teóricos, emocionais, etc. Por exemplo, a invenção da roda terá sido um processo criativo com vista à solução de problemas práticos. Por outro lado, os quadros de Pollock terão sido um processo criativo que voluntária ou involuntariamente procurou solução para questões emocionais internas do próprio autor. Daí que as expressões “problema” e “soluções” me pareçam insatisfatórias.

A criatividade não implica o erro e, menos ainda, é erro. No entanto, implica a predisposição a errar. Dois exemplos: Criar novos pressupostos matemáticos para explicar o Universo, implica a predisposição para que 98% das novas tentativas não o expliquem. Criar uma música para expressar uma emoção, implica que a música possa não conseguir uma boa harmonia.

Para criar, necessitamos de não estigmatizar o erro em nós próprios. Necessitamos de não ter receio do erro, de forma a não condicionarmos os nossos pensamentos criativos.

Quando o evitamento do erro se torna condutor do nosso pensamento, automaticamente ele fica condicionado àquilo que já se sabe ser certo, sem arriscar em tudo aquilo que, podendo ser uma ideia inovadora, pode estar errado. Ou seja, seguem-se os caminhos seguros já explorados ao invés de se explorarem caminhos desconhecidos.

O estigma do erro tem muitas causas potenciais. Algumas culturais, outras educacionais, mas também afetivas. Não ter medo de errar implica segurança em si próprio. Implica a sensação que o poder estar errado não diminui o nosso valor enquanto pessoa.

Aqui, o amor é uma chave de extrema importância. Uma criança que se sinta verdadeiramente amada, muito mais facilmente se sentirá segura a errar. Mais facilmente sente que o seu valor está além da certeza dos seus pensamentos serem os “correctos”. Uma criança que se sinta segura para errar, é uma criança potencialmente mais predisposta aos pensamentos criativos.

A sensação de se ser amado, não sendo condição, oferece a segurança para errar, o que abre portas ao lugar infinito dos atos criativos.

João Miguel Cunha

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