O smartphone a vapor

Confesso que já estava ansiosa por ler mais um dos maravilhosos textos de  João Miguel Cunha . O que escreve faz-me sempre parar para pensar. 
Uma vez mais enriqueceu este cantinho de uma forma única.
Obrigada João pelo maravilhoso trabalho que desenvolves nas escolas e por partilhares connosco as tuas reflexões, sempre tão ricas de conteúdo! 
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     O smartphone a vapor


No início do século XIX, a revolução industrial modificou a estrutura social a praticamente todos os níveis. A demografia sofreu alterações, os posicionamentos sociais e as constituições familiares foram redefinidos, todo o funcionamento económico se alterou.

A educação, claro que não foi exceção. Em linhas muito gerais e pouco rigorosas (mas que favorecem este raciocínio), ao longo de todo o século XIX a educação foi sendo repensada em duas perspetivas: a) na sua tendência a ser cada vez mais universal e não apenas reservada às elites; b) ser funcional.

Estas duas preocupações com a educação estiveram relacionadas entre si. A revolução industrial tinha inaugurado a necessidade de “produção” de mão de obra especializada, e essa, para existir, necessitava de um sistema educativo. Desta forma, a educação das elites, essencialmente humanística, transformou-se numa educação para todos, essencialmente operativa.

Ainda hoje em dia, a educação é em grande parte “desenhada” para produzir mão de obra. O ensino básico está “desenhado” para conduzir ao secundário (ou ao profissional) e, o secundário, está “desenhado” para conduzir ao superior. Ou seja, o sistema educativo é uma espécie de linha de montagem de especialistas em áreas profissionais.

Por comparação, o ensino das elites dos séculos XVIII e XIX, que não ambicionavam ser operários, preservou algumas áreas humanísticas e artísticas. Seria irrealista pensar-se que no currículo do 1º ciclo de uma escola pública em 1890, as crianças se dedicariam a aprender música ou artes plásticas. Não foi de estranhar então, que muitas áreas humanísticas e artísticas tivessem durante dois séculos ficado reservadas quase em exclusividade às classes altas que tinham o luxo de cultivar o ócio.

Hoje em dia, muitas diferenças existem, mas a generalidade do ensino continua baseado em ideais pedagógicos não muito diferentes dos do século XIX. O resultado disto não se reflete apenas no mercado de trabalho, mas sobretudo reflete-se na modelação do pensamento dos indivíduos. Um desses resultados é a “crise” de pensamento criativo, crítico e analítico. Somos educados a acreditar que a aprendizagem bem sucedida é aquela que nos faz possuir informações úteis e funcionais, ou seja, que nos possam levar a desempenhar funções. O sistema de avaliação dos alunos nas escolas é prova disso. Quantos exames avaliam a capacidade dos alunos construírem critica ou criativamente uma resposta para uma questão? E quantos avaliam a capacidade dos alunos reproduzirem uma resposta para uma questão?

Com todas as mudanças inegáveis desde a revolução industrial até à nossa Era de revolução tecnológica, naquilo que são as prioridades de educação da nossa mente, muito pouco mudou. A máquina a vapor deu lugar ao digital, mas o pensamento operativo continua a ser promovido em detrimento do pensamento analítico. Esse, continua quase exclusivo para os privilegiados, seja por direito social, seja por audácia.

Obviamente que esta análise tem muitas falhas de rigor histórico, para as quais seriam necessárias muito mais linhas de texto para abordar com justiça a sua complexidade.



João Miguel Cunha



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