Texto que não serve para nada

Uma vez mais, este cantinho fica tão mais rico com o contributo de João Miguel Cunha. Obrigada por, para além de ensinares professores e alunos a pensar, nos ensinares também a nós, de uma forma única e maravilhosa.

Texto que não serve para nada
Quantas vezes terá Alexandre pensado ou mesmo perguntado “para que é que isto serve?”?. E se o perguntou diretamente ao seu professor, terá esse conseguido responder?
Imagino o pequeno Alexandre a ter uma tarde de aulas e a pensar isso muitas vezes: “por que tenho eu de ir para as aulas? Aquelas coisas não servem para nada.” Imagino-o porque esta pergunta é provavelmente a pergunta mais universal entre os alunos de todas as idades em todo o mundo, desde o inicio da escolaridade.

Talvez o pequeno Alexandre tivesse razão. Talvez as aulas não sirvam para nada. Se não vejamos quantos de nós se lembram e/ou aplicam diretamente todas as coisas que aprenderam na escola. Quantos adultos não sabem o algoritmo da conta de dividir? Quantos, que seguiram outras áreas diferentes sabem distinguir os tipos de rochas? Ou quantos não conseguem distinguir um texto literário modernista de um clássico? E, na verdade, que falta nos faz isso? Talvez nenhuma. Visto que fazemos a nossa vida normalmente sem necessidade de conhecer essas coisas.

Contudo, voltando ao pequeno Alexandre, se disser que me refiro, em forma romanceada, à história verídica de Alexandre “O Grande” e de Aristóteles, aluno e professor, talvez a questão se complexifique.
Teria sido Alexandre o imperador eternizado na história do mundo, sem as aulas de Aristóteles? Não saberemos. Acredito que não.

Em 1687, é publicado pela primeira vez o livro “Princípios matemáticos da filosofia natural”. O seu autor: Issac Newton.
É, provavelmente, o livro mais importante da história da matemática e da física. O trabalho de Newton, na sua altura, servia para quê? Para nada. Era um desperdício de tempo. Estudar Newton, um desperdício maior ainda. Isto, porque era um estudo que nada acrescentava de prático à vida das pessoas. Aliás, até contrariava muito do que estava estabelecido como verdadeiro. Contudo, sem esse livro, provavelmente não teriam surgido os contributos de Einstein e outros. Provavelmente não haveria telemóveis nem micro-ondas. Não se teria ido à lua, não haveria revolução industrial. Fosse como fosse esse universo paralelo, certamente que seria muito diferente daquele que nós conhecemos.

Atualmente, vivemos no conforto da sombra de todos aqueles (muitos mais do que os dois exemplos dados) que dedicaram o seu tempo e a sua energia mental a tudo aquilo que não serve para nada. Pior que isso, tentamos promover todas as coisas que têm utilidade prática imediata e continuamos a menosprezar as outras. Vivemos confortavelmente contentes com a possibilidade de tomarmos um antibiótico quando temos uma infeção que seria mortal há 200 anos atrás. Mas não conseguimos promover o interesse quando se estuda a vida bacteriológica na escola.

Bem-haja Sr. Flemming, por se ter dedicado a estudar o que não servia para nada. Gostamos de ver um filme no cinema ao mesmo tempo que gostamos de ignorar os inventores da escrita de ficção.
Somos utilitaristas. Mas utilitaristas que ignoram a proveniência da utilidade. Tudo aquilo que serve para coisas práticas e confortáveis, um dia, não serviu para nada. Um dia resumiu-se a dias desperdiçados de alguém a escrever e a pensar.


O conhecimento é uma herança muitas vezes pouco estimada. O pensamento sobre o conhecimento é muitas vezes ignorado. Conhecer não serve para nada, defende-se muitas vezes ao mesmo tempo que se defende, o importante é saber fazer, as competências práticas.
Talvez fosse bom para todos nós, reconhecermos mais vezes que a civilização se pode definir enquanto tal, porque todos os “saberes fazer” foram consequência de muitas horas onde o único objetivo era “saber saber”. Não é esse o significado de Sapiens Sapiens?! O Ser Humano é o próprio elogio a tudo o que não serve para nada.
Este texto, não serve para nada. Apenas me apeteceu escrevê-lo assim.

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