Porque o amor também se aprende

Quando tinha 26 anos, ouvi pela primeira vez, “O amor também se aprende”. A afirmação era de uma psicóloga e, como tal, pedi-lhe para me explicar porque dizia aquilo. É que naquela altura eu estava absolutamente convencida que o amor era algo inato.
… não podia estar mais enganada…
Ao longo dos anos fui percebendo que, também no amor, devemos ter boas referências. E, a partir do momento em que me tornei mãe, essa questão tornou-se ainda mais importante para mim.

O ano passado, ao mudarmos de casa, escolhi uma nova escola para o meu filho. Pânico! Quem ficaria agora a cuidar do meu menino na minha ausência? Sim, sou daquelas mães-galinha. Odeio quando o olhar de alguma auxiliar ou professora revira e traduz, ” o seu filho é só mais um, entre muitos, que temos que acompanhar”.

De repente, naquele grande corredor colorido – por onde o meu filho corre todos os dias – aparece alguém com um ar muito doce, com um sorriso único, a transmitir-me toda a paz que tanto precisava naquele momento. Senti, de imediato, que enquanto o meu filho estivesse aos cuidados daquela pessoa, estaria bem.
Quis conhecê-la melhor. Perceber de onde vinha tamanha aura de serenidade, amor e carinho. Confesso que não estava preparada para o que me ia contar.

A Leila tem uma irmã gémea, a Rute. Um dia decidiram ir com os seus companheiros de férias, a Mértola, local onde têm uma casa de família. Tal como Leila, a Rute também tem o curso de Auxiliar de Educação.

… estava agora a tentar lembrar-me onde estava a 15 de Agosto de 2016, dia que mudou a vida destas duas irmãs para sempre.

Curiosamente, sei exatamente onde estava, com quem estava e o que estava a fazer nesse dia. Sei porque já tinham passado quatro anos, desde que também a minha vida tinha mudado para sempre.
Era mais um dia que continuava numa grande luta para recuperar o corpo que, antes de Outubro de 2012, era o meu (quando estamos num processo de recuperação, cada dia é muito importante, único, nunca mais se esquece).

Duas irmãs lindas, felizes, realizadas, a curtir um dia de férias maravilhoso com os amores das suas vidas. Rute ia a conduzir e, em segundos, acontece o acidente. Dos quatro, três ficaram bem. Rute e Leila tinham apenas 30 anos.
Rute já não conseguia sair do carro pelo seu pé. Aliás, nunca mais voltou a andar.

Mas esta não é uma história de vida triste. A parte pior já passou.
Rute, Leila e o seu pai, Lino, ainda não sabem mas são uma grande inspiração para mim. O exemplo perfeito da superação através do amor. Através das suas vidas, não tenho dúvida que têm ensinado muita gente como é possível superar de uma tragédia.

Para além do meu filho, o meu pai é a pessoa que mais amo no mundo. Em muitas coisas procuro amar o meu filho como o meu pai me ama. Mas o meu pai tem uma forma muito particular de amar. E aprendi com a vida que há muitas formas diferentes de amar. Queria muito perceber como amava o pai destas gémeas. Tinha que ser uma forma mesmo muito especial, particular. E era.

Rute continua linda e doce, tal como a sua irmã. Aliás, toda a família só transmite uma energia maravilhosa. Não se revoltou, não ficou amarga. Rute continua a viver com o seu companheiro de sempre. Ele continua a amá-la. Se calhar ainda mais que antes.
Na verdade percebi que, na vida da Rute, saiu a capacidade de andar mas entrou tanto, tanto amor. E a vida continuou e o seu sorriso também.

Lino Lopes, ou também conhecido por Onil, é o pai de Rute e Leila. Entre muitas outras coisas é poeta. Tem um orgulho imenso nas suas origens. Nasceu em Nogueira, na Vila do Pico, Freguesia de Alcofra, Concelho de Vouzela, Distrito de Viseu.

Onil escreveu um livro dedicado à sua filha Rute. Através de poemas ficamos a perceber como é que um pai sofre, se supera e se reinventa perante uma das maiores dores do mundo, que é vermos o nosso filho sofrer.

Fá-lo de uma forma única, que me marcou profundamente. O livro chama-se “Meu Anjo” e tem também como objetivo permitir a angariação de fundos para continuar a apoiar a recuperação da Rute.

Depois de ler o livro percebi que o anjo é Lino, embora ele ainda não tenha consciência disso.
A Rute tem, de certeza, o melhor pai do mundo. E com um anjo assim, acredito – verdadeiramente – em milagres.
O amor que Lino tem pela sua filha não cura só a Rute, cura muitas outras pessoas à sua volta.
Obrigada por me ensinar a amar.

E, excepcionalmente, não termino o texto com a frase “Passei e Gostei!”. Seria demasiado redutor para tamanho impacto que este livro teve na minha vida.

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